Histórias de Avós

Postado em Atualizado em

Hoje, dia 26 de julho, dia de Sant’Ana (Saluba Nanã) e comemora-se o Dia dos Avós. Quem não tem recordações carinhosas destas criaturas divinas enviadas por Deus?

Normalmente fazem parte da infância de todos, principalmente as avós, a quem carinhosamente chamamos de “Mãe com açúcar”… muito açúcar.

Os avós são parte importante do que nos tornamos, é nosso histórico, nosso alicerce e fundação. Particularmente sou muito grata a eles, que me fizeram o que sou hoje. Me orgulho do que eles foram e são na minha vida. Infelizmente, não estão mais neste plano, mas com certeza me acompanham com muito carinho onde quer que estejam.

Eu tive muita sorte, conheci 3 dos meus 4 avós. Para completar, passei minha infância num subúrbio do Rio de Janeiro.
As duas avós moravam na mesma rua tranquila do Cachambi. Eram cerca de 300 metros de distância de uma casa para outra. Apesar da pouca distância, eram dois mundos muito diferentes.

Por conta do nascimento prematuro da minha irmã, com apenas 5 meses e meio de gestação, quando eu tinha 3 anos, meus pais tiveram que se dedicar muito a ela nos 6 primeiros meses de vida. Durante esse tempo, eu praticamente morei na casa dos meus avós paternos, junto com minhas 2 tias. Lembro muito pouco desta época, mas com certeza esses meses morando na casa dos meus avós fortaleceram meus laços com eles e até eu chegar na faculdade, lá era meu porto seguro, meu segundo lar. Toda sexta eu ia para lá depois da escola e só voltava para casa no domingo depois do Fantástico. Nas férias meus pais nem me viam em casa e em greve de escola era a melhor coisa…

Meus avós paternos viviam numa chácara. Era um terreno enorme com várias árvores, pássaros e muita terra para brincar. Tive infância!

Corri, pulei, andei muito de bicicleta e obviamente ralei muito o joelho. (Absolutamente concordo com a música que diz que um joelho ralado doi bem menos que um coração partido, como dói menos!!!!).

Meus avós paternos eram de Aracaju, então tinha muita referencia nordestina na minha infância. Todo mês de julho, meu avô mandava fazer uma baita festa Julina no quintal. Passava a semana fazendo decoração com minhas tias, acompanhava os preparativos das comidas. Meu pai cortava árvore para lenha da fogueira. Era uma verdadeira festa! Vinha vizinhos, amigos e realmente é uma lembrança muito gostosa.

Quando eu tinha uns 7 anos, meu avô vendeu boa parte do terreno da casa para a construção de um condomínio da aeronáutica. Lembro que chorava muito gritando para os vizinhos todos escutarem: “Como eu ia ficar sem a minha terrinha…”

Meu avô, sensibilizado, mudou um pouco os termos do contrato e deixou um bom pedaço de terra, acho que uns 400 a 500m2 de quintal de terra. Fez meu pai e minhas tias encherem 10 latões (desses de tintas) de terra do quintal grande para que eu pudesse ter a “minha terrinha”. Avô…

Isaac Cotinhola – avô materno
Italiano de Sicília. Alto, forte, bonitão. Sempre pousava de galã nas poucas fotos que eu vi dele. Nem sei se consigo ter a imagem dele muito clara na minha mente. Era alfaiate. Muitos dizem que eu puxei muito da família dele. Principalmente a altura, já que meus pais têm 1,60m e eu tenho 1,71m. Ah, dizem que meu nariz também é de lá da Itália!

Se foi 5 anos antes de eu chegar por essas bandas. Na verdade, pouco sabia dele até bem pouco tempo atrás. Ele teve seus erros, muitos erros e talvez por isso nunca se falou muito dele.

Adhemar de Mattos Telles – avô paterno

Na varanda da casa dele com meus primos

Meu querido avô… Tanto carinho que eu ainda sinto por ele. Ele se foi em 1986, bem próximo da morte do Tancredo Neves. Eu tinha 9 anos. Lembro do dia que ele foi internado. Ele já sofria de Parkinson há muito tempo, já tinha mais de 80 anos. Um dia, no almoço de domingo ele chorou, chorou muito, disse que tinha dores… Eu lembro de ter saído da mesa e fui para a sala do piano com minhas bonecas de papel, chorar com elas. Era muito triste ver meu avô chorar. Naquele mesmo dia a ambulância veio buscá-lo… ele nunca mais voltou.

Nós éramos muito ligados, tão ligados que ninguém queria me contar do falecimento dele. Mas ele já tinha me contado num sonho. Lembro perfeitamente do sonho. Era uma roda, eu estava embaixo, ele em cima com um regador, regando umas margaridas, de repente ele caía, eu tentava chegar até ele para socorrer mas a roda rodava ao contrário, até que quando eu cheguei até ele, ele me disse que já tinha ido e que eu precisava ser forte. Eu não fui! Por questões emocionais por conta de sua morte, eu perdi 70% da minha visão. Deixei todo mundo louco. Não enxergava nada além de vultos. Passei a ser tratada na Cruz Vermelha 3 vezes por semana por 1 ano para conseguir recuperar.
Ao longo da minha vida, ele veio me visitar muitas vezes. Já não vem há uns 5 anos.

Ele era um homem nordestino, fez até a quarta série primária, mas era um matemático de mão cheia, fazia contas de cabeça que qualquer quantidade de algarismos e qualquer operação. Era auto-didata. Se formou na faculdade da vida. Aprendeu inglês e francês sozinho para montar a primeira empresa de refrigeração do RJ e importar seus insumos.

Veio com a cara e a coragem do nordeste, de carona, em pau-de-arara. Vendeu barbante na feira, era padeiro de noite, até juntar seu dinheirinho e trazer sua companheira. Logo depois montou a Telles e Cia, empresa que seus filhos trabalharam com ele até ele partir.

Formou seu irmão e seu cunhado (meu querido e amado tio avô Lourival) com seu trabalho para que eles pudessem galgar seus próprios voos.

Construiu um pequeno império. Tinha várias casas, mandou calçar as ruas de onde morava com sua influência. Era um maçon praticante e benfeitor. Doou parte de seus bens para seus irmãos necessitados.

Uma inspiração para mim! Em todos os aspectos: em seu caráter, seu modo de vida, seu carinho por mim e sua presença, mesmo depois de sua passagem…

Marina Maciel Telles – avó paterna

Ela era prima de meu avô. Tenho poucas recordações dela em sua essência. Ele teve Alzheimer desde quando eu era muito pequena. Lembro de seu cabelo de algodão, seus carinhos, sua mania de limpar a mesa com a mão, de dobrar papéis e de reclamar rsrsrsrs… Minha vó “Magra”…

A Vó Gorda e a Vó Magra

Ela se foi quando eu tinha 14 anos, em setembro, meses antes do meu aniversário de 15 anos… Foi estratégica a partida dela. Minhas tias passaram a vida cuidando dela e a passagem dela foi substituída pelos preparativos do meu aniversário de 15 anos.

Lembro que ela já estava muito debilitada e foi criado uma UTI na casa, na antiga sala do piano. Eu já não queria ir lá, não queria ver. Mas, a vizinha da minha outra avó era enfermeira e precisou que eu fosse lá entregar um remédio. Entrei na sala, ela estava dormindo. Dei um beijo na testa dela, ela acordou e me olhou. Fiquei 5 minutos e fui embora, quando me virei e olhei para ela, saíram lágrimas dos olhos dela, ela usava máscara de oxigênio. Nunca me esquecerei da nossa despedida, silenciosa, profunda e absolutamente inesquecível…

No dia seguinte de manhã quando o telefone tocou, eu já sabia da notícia antes de atender o telefone.

Maria Gonçalves Cotinhola – avó materna

Dona Maria! Orgulho!!!! Mulher forte, guerreira, empreendedora, trabalhadora, corajosa.

Portuguesa de Tras dos Montes, chegou bebê no Brasil, óbvio que nem sotaque tinha, mas seus hábitos e jeitinho eram todos portugueses. Passei minha infância toda escutando Roberto Leal rsrsrsrs… Mas, quem ela gostava mesmo era do Roberto Carlos… e do Silvio Santos…

Nunca deixou ninguém ver Globo na casa dela! Era só SBT!

Criou os 3 filhos sozinha boa parte da vida. Trabalhou até o último dia de sua vida. Adorava trabalhar. Não conseguia ficar parada. Mesmo com suas perninhas arcadas, sua dificuldade de locomoção…

A recordação de infância que tenho de minha Vó “Gorda” era que sempre tinha MUITA comida na casa dela. A gente explodindo de gordura e ela empurrava comida na gente dizendo que a gente estava magrinho… Aquela vitamina de abacate num copo interminavelmente grande…

Fumava… Amava ter cachorro grande, sempre tinha. Lembro como ela ficou triste quando se mudou para um apartamento e não pode mais ter. Era tão forte… Batia bolo na mão, costurava, cozinhava, conversava, vendia (que vendedora!!!). Ia para São Paulo nas madrugadas da vida e trazia roupas para vender. Como eu usei conjunto Adidas Azul Marinho que ela comprava para mim. Ia muito com minha tia atender as clientes dela espalhadas pelo RJ todo. Vivia de Bobs no cabelo, batom e muito talco.

Um dia ela resolveu parar de fumar, era certo encontrá-la chupando um pau de canela o dia todo… Era engraçado. Pelo menos funcionou! Depois de algum tempo ela parou com a canela.

A gente podia chegar de surpresa, de dia, de noite, de madrugada… Quase que imediatamente ela aparecia com um prato de vidro marrom com “bife de casquinha”, batata frita e arroz soltinho feito na hora. Ninguém faz batata frita como ela fazia. E a rapidez de cortar a batata???? Se um dia criassem um concurso de fazer batata frita, não ia ter para ninguém!

Natal era sempre na casa dela. Casa portuguesa com certeza. Muita fartura e obviamente especial de Roberto Carlos na TV.

A Última foto com ela!

Adorava suas gargalhadas. Seus olhos esverdeados. E seu jeito único de me chamar: Luzinha…

Quando casei, vim morar no mesmo prédio que ela, aliás, no apartamento que ela deu para minha mãe… Eu nunca soube cozinhar, ela que me salvava, sempre!!!! E quando meus filhos nasceram???? Minha eterna gratidão!!!! Era ela quem os alimentava, sem dúvida. Era o prazer dela, dar o que comer rsrsrsrs

Parte do brilho dela se apagou quando meu tio se foi… Por mais uma dessas coincidências da vida, ele se foi 2 meses antes do Yan, meu filho, nascer. Acho que isso que a manteve de pé. Ocupou a mente dela. Eu precisava muito dela!!!!]

Em abril de 2015 eu morava em Recife, mas vim ao Rio para 5 dias a trabalho, passei esses dias na casa dela. No último dia, já estava na porta e voltei, no meu fundo sabia que era a última vez que a veria. Voltei e tirei a ultima foto com ela. Guardo essa foto com muito carinho. Ela reclamou porque estava feia.

21 de julho de 2015 ela se foi… Foi a primeira vez que entrei num cemitério, tinha que me despedir dela… Tive que vir no primeiro voo de Recife para cá.

Ainda sinto o seu cheiro. Ela não era de fazer muito carinho físico, mas minha alma era absolutamente acarinhada por seu amor e zelo.

Saudade! Como dói!!!!

***********

É isso… Minha base… Foram eles que me ajudaram a chegar até aqui… Eles que me abençoaram sempre.

Bença Vôs, Bença Vós!

Sinto MUITO a falta destas luzes na minha vida!

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s