Ontem, 12/02/2026, uma tragédia chocou o país: Em Itubiara, Goiás divisa com Minas, um pai, ao supostamente acreditar que estava sendo traído, matou os dois filhos adolescentes e tirou a própria vida, deixando uma carta em que falava de “amor possessivo”.
O secretário de Governo da Prefeitura de Itumbiara, no sul do estado, Thales Naves Alves Machado, de 40 anos, atirou contra os dois filhos e se matou em seguida, na noite da quarta-feira (11), segundo confirmou a PM à reportagem da TV Anhanguera. Thales era genro do prefeito Dione Araújo.
Miguel Araújo Machado, o filho mais velho, tinha 12 anos e morreu. Ele chegou a ser levado para o Hospital Municipal Modesto de Carvalho (HMMC), mas não sobreviveu. O mais novo, de 8 anos, foi operado e está internado em estado gravíssimo na UTI do Hospital Estadual de Itumbiara, São Marcos, segundo informou a secretaria de comunicação do município. –
Sem sensacionalismo e com respeito às vítimas, vale refletir sobre um ponto essencial: amor possessivo não é amor. É controle. É descontrole emocional. É violência. E, quando esse tipo de “amor” encontra terreno fértil em ciúme, insegurança e falta de limites, o que nasce não é vínculo — é perigo.
Eu não escrevo isso para alimentar curiosidade, nem para apontar dedos sobre uma história que ninguém conhece por inteiro. Eu escrevo porque, em momentos assim, a gente precisa ter coragem de encarar uma verdade incômoda: a posse ainda é romantizada. E isso normaliza comportamentos que machucam — até que alguém se quebra por dentro… ou algo irreversível acontece.
Vale acrescentar aqui o absurdo que foi os xingamentos à uma mãe no velório do filho, ninguém sabe as razões dela, a verdade do casal. O que mais me choca é ainda colocarem a pseudo traição (até porque ao que parece pelo que estava na carta dele, o casamento tinha acabado e ele não estava aceitando que ela seguisse adiante) com um peso maior do que o assassinato de 2 crianças que nada teriam a ver com os problemas do pai.
Aqui entendemos como o feminicídio cresce tanto… A justificativa cultural do “Ela traiu e mereceu” é surreal quando falamos de vidas humanas.
Quando controle é confundido com cuidado
Muita gente cresce ouvindo frases que parecem inofensivas, mas são sementes de uma ideia perigosa:
- “Se tem ciúme, é porque ama.”
- “Ele é assim porque se importa.”
- “Ela só quer me proteger.”
- “É meu/minha.”
O problema é que amor não combina com vigilância. Amor não é “provar” o tempo todo. Amor não pede para você diminuir sua vida para caber na insegurança do outro.
Em relacionamentos abusivos, a escalada quase nunca começa com algo “grande”. Ela costuma começar “pequena”, com sinais que podem parecer até zelo — mas que, no fundo, tentam reduzir a sua autonomia:
- “Estou só cuidando de você.”
- “Não gosto das suas amizades.”
- “Me manda sua localização.”
- “Me prova onde você estava.”
O problema não é uma frase solta, dita num dia específico. O problema é quando isso vira padrão, vira regra, vira exigência. Quando você começa a viver num estado onde a paz depende do humor do outro.
Com o tempo, esse “cuidado” pode virar:
- isolamento (você se afasta de amigos e família para evitar conflito)
- chantagem emocional (culpa, pena, medo, promessas que não se sustentam)
- ameaças (diretas ou veladas)
- invasão de privacidade (celular, redes sociais, senhas, rastreamento)
- agressões (verbais, psicológicas e, em alguns casos, físicas)
Amor saudável, ao contrário, preserva liberdade, respeito, confiança e limites. E limite não é frieza: limite é proteção.
Ciúme: emoção humana ou sinal de risco?
Ciúme pode existir como emoção humana. Mas ele vira sinal de alerta quando deixa de ser sentimento interno e vira comportamento controlador.
Ciúme vira risco quando se transforma em:
- controle (roupas, horários, contatos, redes sociais)
- punição (silêncio, humilhação, culpa)
- ameaça (“se você me deixar, eu vou…”)
- perseguição (monitoramento, invasão de privacidade)
- violência (verbal, psicológica, física)
Se você reconhece esses sinais, leve a sério. Não é “amor intenso”. É perigo.
E aqui eu quero ser bem clara: quando alguém diz “fiz porque te amo”, isso não diminui a gravidade do ato. Na verdade, mostra o quanto essa pessoa está confundindo amor com domínio.
Sinais de relacionamento abusivo que você não deve normalizar
Alguns alertas comuns — e muito reais — que costumam aparecer antes de situações mais graves:
- Você sente que precisa “pisar em ovos”.
- Você evita assuntos para não provocar briga.
- Você se afastou de amigos/família.
- Você pede desculpas o tempo todo “para manter a paz”.
- Você tem medo da reação do outro.
- Você se sente diminuído(a), culpado(a) ou controlado(a).
- Você vive se explicando, se justificando, se defendendo.
- Você começa a duvidar de si mesmo(a), como se estivesse sempre errado(a).
Nenhuma relação é perfeita. Mas uma relação saudável não te coloca em tensão constante. Amor não deveria ser um lugar onde você precisa sobreviver emocionalmente.
Por que tanta gente tolera dor em nome do amor?
Essa é uma pergunta difícil — e necessária.
Muitas pessoas ficam porque:
- têm medo de ficar sozinhas
- sentem culpa (como se ir embora fosse “falta de amor”)
- foram ensinadas a “aguentar” para dar certo
- confundem intensidade com vínculo
- acreditam que “se eu mudar, a pessoa muda”
- já estão exaustas e sem rede de apoio
- vivem dependência emocional e/ou financeira
Quando a dor se repete por tempo suficiente, ela pode virar “normal”. E quando algo vira normal, a gente para de questionar. Até que a vida grita.
O que fazer se você está vivendo isso (com segurança)
Se você se identificou com parte do que leu, eu quero te dizer uma coisa com carinho e firmeza: pedir ajuda não é fraqueza.
Alguns passos práticos (com segurança):
- Fale com alguém de confiança e peça apoio prático (não só opinião).
- Procure ajuda profissional, se possível (terapia, orientação jurídica, serviços sociais).
- Se houver risco imediato, procure os serviços de emergência da sua cidade.
No Brasil, o Ligue 180 orienta e encaminha casos de violência contra a mulher.
Importante: em relações controladoras, o momento de romper pode aumentar o risco. Planeje com apoio.
“Se tem dor, não é amor”
Eu já escrevi isso antes no meu ebook sobre o tema e reforço aqui: se tem dor, não é amor.
Não estou falando dos desafios normais da vida a dois. Estou falando da dor que te apaga, te confunde, te prende, te faz perder a própria voz.
Relacionamento não deveria ser o lugar onde você precisa escolher entre amar e se proteger. Amor não é cárcere emocional. Amor não é vigilância. Amor não é medo.
Um convite (sem pressa, sem pressão)
Se você quer organizar os pensamentos, entender padrões, reconhecer sinais e reconstruir seu centro emocional, eu reuni tudo isso no meu e-book “Se Tem Dor, Não É Amor”.
Ele não é um “texto para te empurrar decisões”. É um material para te devolver clareza — e clareza, muitas vezes, é o primeiro passo para recomeçar.
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